Conto, anti-conto, ou texto híbrido?
«… Não são só as incoerências do texto, que parecem pretender vincar a autonomia entre os capítulos (quadros, segundo o autor), comprometendo a possibilidade de uma estrutura coerente, como também a desordem do enredo, que denega o sempre esperado “contar do Conto”. …»
«…O passado, apresentado nessa forma da narrações paradoxais que tentam estabelecer uma dialéctica com o presente no intuito de construir acontecimentos viáveis, levanta o véu que esconde uma intenção de construção de um texto de metaficção de cunho historiográfico. Mas por aí se fica, pois nem a extensão nem a estrutura da escrita permitem o desenvolvimento desse ensaio que se vislumbra…»
«A ficção contrafactual cria incongruências irónicas introduzindo figuras e eventos históricos em sequências ficcionais alternativas ou personagens de ficção em sequências históricas …»*
«…A classificação quanto ao género literário em que se insere, afigura-se difícil, senão impossível, pois a desconstrução genológica e temporal deste “texto híbrido” remete-o para uma terra de ninguém, nas longínquas margens do Conto….»
«Sobre as incongruências: Na Introdução, Leanor da Piedade é apresentada como uma das personagens principais do conto. No Cap. III, uma Isabel Violante é sugerida como personagem principal. No Cap. VI, aproxima-se um automóvel do Convento mas no Cap. X é uma carruagem que se afasta do Convento. Ainda no Cap. III, uma Leonor Violante da Anunciação, cozinheira e doceira, filha de um D. Rodrigo, é expulsa da ordem. Ora, no Cap. IX, surge uma outra Leonor (da Piedade), apresentada como filha de D. Rodrigo e sobrinha do alfaqueque, que parece assumir o papel que pertencia a Isabel Violante. Tais contradições suscitam várias perguntas, nomeadamente: 1 - O que aconteceu a Isabel Violante, que não mais é referida directamente? Será que tal como outras personagens serve apenas para suporte de mensagens enviesadas ao enredo central? 2- Se Leonor Violante da Anunciação é filha de D. Rodrigo, este D. Rodrigo é o irmão do alfaqueque e pai de Leonor da Piedade? Então as duas são irmãs ou são uma única pessoa com dois nomes diferentes? Mas uma foi expulsa e a outra continua no Convento?! Será ou não será, parece que tal coisa não importa ao autor. Não importa o nome de nenhuma das freiras, nem a identificação dos actos cometidos.»
«…O conto – quase anti-conto – imputa quaisquer dos actos a qualquer das freiras, não por pretender estabelecer um estereotipo da freira mas querendo, talvez, inferir que tais acções, sortes e infortúnios podiam acontecer a qualquer uma. (…) Entramos aqui no texto reflexivo, promotor de análise acerca da condição humana destas mulheres.»
«…O alvo primacial da ironia é a história religiosa mas também a memória cultural. Estas reescritas do futuro do passado a partir de uma possibilidade histórica não-realizada … apesar do seu discurso irónico, manifestam um projecto de emancipação.»*
Ualter Ego
* in http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/metaficcao_historiografica.htm
domingo, 15 de julho de 2007
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